terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A noite já começou

A noite já começou. A mulherada passa pra lá e pra cá, exalando perfumes enlouquecedores e exibindo um visual capaz de tirar muito pai de família do prumo. Estou na terceira garrafa d’água mineral sem gás. Bebo em largos goles, um após o outro, tentando saciar o insaciável em mim, uma sede de outros tempos ou de outras vidas, quem sabe, que até hoje eu não entendo e ainda não sei como explicar.

Eu observo cada uma das gurias que passa, me apaixono por cada uma delas diversas vezes em uma sequência absurda e indescritível. Tenho sonhos de amores loucos e sem fim que se desfazem para recomeçar logo a seguir, ao pressentir uma nova promessa de febre no semi-árido do meu peito.

Nessas horas, minha impaciência fica patente na velocidade com que dreno copos e mais copos de H2O. O meu desconforto é denunciado pelo suor que verte de todo o meu corpo e pela voracidade com que despedaço o rótulo de cada uma das garrafinhas azuis. Minhas mãos se agitam sobre a mesa, servindo mais uma vez a água insossa. Nessas horas invejo os fumantes: parecem ler os próprios pensamentos na fumaça que expelem a cada tragada, contendo a inquietação dos próprios espíritos. Não contava com aquele maldito diagnóstico de gastrite. Não bastasse me cortar o chocolate, o café, a pimenta, gorduras e frituras, o médico ainda suspendeu meu trago por três meses. Logo a cana, minha inseparável muleta noturna. Ela, que me anima o espírito durante a balada, tornando as cores mais vivas e o meu agir mais destemido e impiedoso.

A cada vez que a noite se aproxima e escuto o chamado selvagem, é nela que eu penso, na malvada da birita, meu escudo e minha arma. Será que um médico não sabe que é impossível sair assim, a seco?

A cada vez que percebo minhas mãos vazias, é como se estivesse nu no meio de toda aquela gente. Fora as vezes em que um gatilho atávico dispara e me faz procurar um copo com um trago de qualquer coisa que não vai estar lá. E todas aquelas mulheres e eu desesperadamente sozinho, indefeso diante de seus encantos? A essa altura do campeonato, algumas doses de uísque ou umas três cervejas, quem sabe as duas coisas juntas, já teriam despregado meus pés do chão e arremessado o meu corpo ao encontro de uma delas...

Mas não, nada disso acontece. Estou aqui, sóbrio e débil. Segregado em um momento que deveria ser de desbravar o inesperado. Não tenho porque prorrogar esse estrondoso massacre psicológico. São três horas da manhã, tarde demais para rasgar as recomendações médicas e recorrer às armas. Vou ao caixa, pago a minha conta e, cabisbaixo, cruzo a porta da festa. Às minhas costas, ficam o som do brandir dos copos, da música hipnótica e das gargalhadas daqueles que podem encher a cara impunemente. Eu, derrotado, tomo a rua escura rumo ao meu quarto, ao meu túmulo.

Cassino, tarde de 15/01/10.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Teu beijo

Teu beijo queima meus lábios e minha pele,
e o que bebi em tua boca desce como fogo em minhas entranhas.
Anda logo e me embriaga: não me nega essa bebida doce e amarga.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ãnh?

deus é só um quadro na parede?
os muros nus de minha casa não sentem sua falta.
O branco que cobre o cimento, o silêncio que impera em minha solidão
e em cada cômodo me dão quase a certeza de que estamos eternamente sozinhos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O vento rompe o silêncio

O vento rompe o silêncio.

Assovia entre as frias construções

uma melodia soturna,

que põe em marcha a tristeza nos corações.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre o samba

O samba é a mistura das cores,

das cordas com os tambores.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Oferta

Se minha dor te dá prazer,
é só dizer: eu corto de bom grado
um pedaço do meu coração.
Só não diga que não liga.
Eu sofreria numa boa, se souber que não é à toa,
que não é em vão.
Então, quando eu ficar meio down,
Olhe pra onde eu estiver e sorria.
Assim, eu saberei que ao menos meu tormento
te faz feliz.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pra rimar com saudade

Rimas óbvias para a saudade
não resolvem o meu problema:
saudade tem que rimar é com encontro!!!!!