domingo, 5 de julho de 2009

Devaneios de domingo

Às vezes eu acho que o amor não existe
e eu sou só mais um cara triste
que precisa de uns remédios pra tomar
e conseguir tocar a vida
ir lambendo as feridas,
fazendo-as sarar.
Ignorar os próprios pensamentos e
renegar sentimentos,
matá-los na fonte,
deixá-los secar.
Como faço com as garrafas, que seco com destreza,
destruindo toda a beleza que nem chegou a brotar.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sarney: cara dura é pouco


Como se o copo da nossa paciência ainda não tivesse transbordado, o senador José Sarney tenta explicar o que não tem explicação. Tudo bem: o nobre parlamentar não é o inventor da corrupção. Mas, com toda a certeza, é um dos mais cotados a ser escolhido como seu maior símbolo no Brasil dos últimos tempos. Sarney é da cada vez mais comum estirpe que não faz distinção entre o público e o privado. Aos 79 anos de idade e mais de cinco décadas de vida política, o ex-presidente é a personificação do que pode haver de pior em um agente público. Ao longo dos anos, tem usado o status e o poder que os diversos cargos que ocupou lhe conferiram para ampliar cada vez mais o império político de sua família – um negócio que tem explorado muito bem. Tá certo que ele não é o único: Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho e Michel Temer, para não alongar muito a lista, também são pródigos em histórias mal contadas ou além da imaginação. Entretanto – e ainda bem, nenhum deles ocupou a presidência da República. Mas o que mais podemos esperar, quando até o Lula dá atestado de bons antecedentes ao Sarney?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Lupicínio 2000

Vou me embrutecer
Vou me imolar
Triturar corações
e comê-los no jantar
As tuas lágrimas,
colherei todas
em meu cálice de esmeraldas
O teu choro vai matar a minha sede
Eu vou sempre esperar
tu quebrares a cara
Quando isso acontecer
eu estarei lá, para rir do teu sofrer
19/06/09

O fim do silêncio

É verdade, eu andei sumido. Optei por ficar um tempo longe do computador. Por obrigação profissional, já passo boa parte das 44 horas semanais da minha jornada de trabalho espancando o teclado de um PC. Na real, pra um cara como eu entrar nessas de virar blogueiro, primeiro tem que se disciplinar pra não desandar o resto da vida. Eu entrava em casa, comia alguma coisa e ligava o computador. A louça ia se acumulando na pia e assim ficava - eu não dou muita pelota mesmo pra esse papo de faxina. Meu apê continua bastante próximo de um aterro sanitário, mas consegui me organizar o suficiente para chamar uma heróica diarista.
Eu andava lendo menos também. Por mais que eu esteja fora de Pelotas há quase oito anos, eu ainda carrego comigo aquela impressão de ser um exilado. Daí ligo a máquina e fico de bobeira uma boa parte da noite no msn, batendo papo com os amigos que também estão longe. As revistas e livros estavam empilhados e abandonados à sorte na cabeceira da minha cama.
Meu violão praticamente não me reconhecia e havia um monte de novas músicas que eu andava louco pra aprender. Por fim, e principalmente, andava sem tesão pra escrever. Assim, essa parada surgiu naturalmente.
Agora estou tentando "botar ordem no pagode". Vamos ver no que vai dar.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Pus a corda no pescoço

Pus a corda no pescoço
E pulei do cadafalso
Perdido por teus beijos
Louco pelos teus abraços
Quando ela esticou
Meus pés não tocaram o chão
Não te alcancei
Pensando que era amor, feito tolo,
Me suicidei

O vento balançava meu corpo suspenso
Tu estavas ali perto, admirando o espetáculo
Por mais que me recriminem, não quis partir morto ingrato
No último suspiro, busquei forças e cuspi meu coração aos teus pés
Finalmente, te vi sorrir, enquanto a névoa envolvia meus olhos

Lajeado – 16/01/07, 00h50min

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Lembrança de um dia cinzento

Era uma tarde nublada e eu caminhava pela rua Gonçalves Chaves. Pouco depois de cruzar a Dr. Amarante, embaixo de uma marquise, notei um grupo de crianças – não consegui contar quantas eram e nem perceber se havia meninas entre elas. Fazia frio e elas dormiam amontoadas, envoltas em caixas de papelão. Já passava das 14h e elas seguiam ali, sem dar atenção ao barulho dos carros ou perceber que eu as observava. Talvez ainda entorpecidas pelo uso de alguma droga, com certeza com fome e sujas. Talvez sonhassem com uma vida diferente, com família, casa, comida e um pouco de dignidade. Ou estivessem mergulhadas em pesadelos recheados de abusos e violência. Quem sabe apenas descansassem no escuro de si mesmas, o único lugar em que se consegue uma pequena trégua da vida. Fui tirado daquele transe pelas manifestações de piedade de um ruidoso grupo. Alguns metros adiante, um punhado de pessoas reunia-se em volta de uma pequena árvore. Comoviam-se muito e perguntavam umas às outras quem seria capaz de abandonar aquelas pequenas vidas ali. Alguns já se prontificavam a levar um dos filhotes de cachorro abandonados, amarrados à pequena árvore, para casa.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Políticos brasileiros e a máfia italiana: uma visão em comum

Em um trecho do livro Gomorra, o jornalista italiano Roberto Saviano descreve a forma como parte dos mafiosos italianos via suas relações com o Estado.

“Uma das declarações que mais me aturdiram sobre os mafiosos sicilianos foi a de Carmine Schiavone, arrependido do clã dos Casalesi, em uma entrevista dada em 2005. Falava da Cosa Nostra como uma organização escrava dos políticos, incapaz de raciocinar em termos de negócios, como faziam os camorristas casertanos. Para Schiavone, a máfia queria colocar-se como um Contra-Estado, e isso não era um discurso de empresários. Não existe um paradigma Estado-contra-Estado, mas somente um território em que negócios são feitos com, através e sem o Estado:
Nós vivíamos com o Estado. Para nós, o Estado devia existir e devia ser um Estado tal como é. Só que tínhamos uma filosofia diferente da dos sicilianos. Enquanto Riina vinha de um lugar isolado, de uma montanha, enquanto ele era um velho pastor de ovelhas, nós já tínhamos superado essa visão, queríamos conviver com o Estado. Se alguém no Estado se tornava um obstáculo, encontrávamos outro disposto a nos favorecer. Se era um político, não votávamos nele, se era alguém das instituições, encontrava-se um modo de dar-lhe a volta.

Olhando a forma como a maioria dos políticos brasileiros tem agido no cumprimento de seus mandatos e no exercício de cargos públicos, acho que ambos os grupos compartilham o mesmo ponto de vista. Assim como os mafiosos italianos, para os políticos brasileiros o Estado/Poder Público é apenas um meio para a concretização de seus negócios ou um ente que, ao menos, não deve atrapalhar os seus esquemas. Só encontrei uma pequena diferença entre a nossa realidade e a italiana. Lá, os mafiosos se utilizam dos políticos, corrompendo-os ou eliminando-os, para concretizarem seus negócios. Aqui, os nossos políticos já são a própria máfia.