Pus a corda no pescoço
E pulei do cadafalso
Perdido por teus beijos
Louco pelos teus abraços
Quando ela esticou
Meus pés não tocaram o chão
Não te alcancei
Pensando que era amor, feito tolo,
Me suicidei
O vento balançava meu corpo suspenso
Tu estavas ali perto, admirando o espetáculo
Por mais que me recriminem, não quis partir morto ingrato
No último suspiro, busquei forças e cuspi meu coração aos teus pés
Finalmente, te vi sorrir, enquanto a névoa envolvia meus olhos
Lajeado – 16/01/07, 00h50min
sexta-feira, 22 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Lembrança de um dia cinzento
Era uma tarde nublada e eu caminhava pela rua Gonçalves Chaves. Pouco depois de cruzar a Dr. Amarante, embaixo de uma marquise, notei um grupo de crianças – não consegui contar quantas eram e nem perceber se havia meninas entre elas. Fazia frio e elas dormiam amontoadas, envoltas em caixas de papelão. Já passava das 14h e elas seguiam ali, sem dar atenção ao barulho dos carros ou perceber que eu as observava. Talvez ainda entorpecidas pelo uso de alguma droga, com certeza com fome e sujas. Talvez sonhassem com uma vida diferente, com família, casa, comida e um pouco de dignidade. Ou estivessem mergulhadas em pesadelos recheados de abusos e violência. Quem sabe apenas descansassem no escuro de si mesmas, o único lugar em que se consegue uma pequena trégua da vida. Fui tirado daquele transe pelas manifestações de piedade de um ruidoso grupo. Alguns metros adiante, um punhado de pessoas reunia-se em volta de uma pequena árvore. Comoviam-se muito e perguntavam umas às outras quem seria capaz de abandonar aquelas pequenas vidas ali. Alguns já se prontificavam a levar um dos filhotes de cachorro abandonados, amarrados à pequena árvore, para casa.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Políticos brasileiros e a máfia italiana: uma visão em comum
Em um trecho do livro Gomorra, o jornalista italiano Roberto Saviano descreve a forma como parte dos mafiosos italianos via suas relações com o Estado.
“Uma das declarações que mais me aturdiram sobre os mafiosos sicilianos foi a de Carmine Schiavone, arrependido do clã dos Casalesi, em uma entrevista dada em 2005. Falava da Cosa Nostra como uma organização escrava dos políticos, incapaz de raciocinar em termos de negócios, como faziam os camorristas casertanos. Para Schiavone, a máfia queria colocar-se como um Contra-Estado, e isso não era um discurso de empresários. Não existe um paradigma Estado-contra-Estado, mas somente um território em que negócios são feitos com, através e sem o Estado:
Nós vivíamos com o Estado. Para nós, o Estado devia existir e devia ser um Estado tal como é. Só que tínhamos uma filosofia diferente da dos sicilianos. Enquanto Riina vinha de um lugar isolado, de uma montanha, enquanto ele era um velho pastor de ovelhas, nós já tínhamos superado essa visão, queríamos conviver com o Estado. Se alguém no Estado se tornava um obstáculo, encontrávamos outro disposto a nos favorecer. Se era um político, não votávamos nele, se era alguém das instituições, encontrava-se um modo de dar-lhe a volta.”
“Uma das declarações que mais me aturdiram sobre os mafiosos sicilianos foi a de Carmine Schiavone, arrependido do clã dos Casalesi, em uma entrevista dada em 2005. Falava da Cosa Nostra como uma organização escrava dos políticos, incapaz de raciocinar em termos de negócios, como faziam os camorristas casertanos. Para Schiavone, a máfia queria colocar-se como um Contra-Estado, e isso não era um discurso de empresários. Não existe um paradigma Estado-contra-Estado, mas somente um território em que negócios são feitos com, através e sem o Estado:
Nós vivíamos com o Estado. Para nós, o Estado devia existir e devia ser um Estado tal como é. Só que tínhamos uma filosofia diferente da dos sicilianos. Enquanto Riina vinha de um lugar isolado, de uma montanha, enquanto ele era um velho pastor de ovelhas, nós já tínhamos superado essa visão, queríamos conviver com o Estado. Se alguém no Estado se tornava um obstáculo, encontrávamos outro disposto a nos favorecer. Se era um político, não votávamos nele, se era alguém das instituições, encontrava-se um modo de dar-lhe a volta.”
Olhando a forma como a maioria dos políticos brasileiros tem agido no cumprimento de seus mandatos e no exercício de cargos públicos, acho que ambos os grupos compartilham o mesmo ponto de vista. Assim como os mafiosos italianos, para os políticos brasileiros o Estado/Poder Público é apenas um meio para a concretização de seus negócios ou um ente que, ao menos, não deve atrapalhar os seus esquemas. Só encontrei uma pequena diferença entre a nossa realidade e a italiana. Lá, os mafiosos se utilizam dos políticos, corrompendo-os ou eliminando-os, para concretizarem seus negócios. Aqui, os nossos políticos já são a própria máfia.
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sábado, 4 de abril de 2009
O dia em que o Demo cruzou o caminho do Rock N'Roll – Parte II

“Eu fui até a encruzilhada e me ajoelhei”. Assim começa a letra de “Crossroad Blues”, onde Robert Johnson descrevia um pretenso encontro com o “Tinhoso”. Johnson é uma figura lendária do Blues. Conta-se que o cara era um guitarrista medíocre e que, depois de passar alguns meses inexplicavelmente desaparecido, retornou com uma destreza inacreditável nas seis cordas.
Ao apresentar músicas como a citada e outras - Me and the Devil Blues, Hellhound on my Trail –, todas com referência ao “Coisa Ruim”, Johnson selava a fama – infundada ou verdadeira – de que toda a sua habilidade musical era resultado de um pacto com o Capeta. O bluesman nasceu em 8 de maio de 1911, no Mississippi (EUA), e a partir de 1931 passou a viajar pelo sul do país com seu violão. Gravou somente 29 músicas (The Complete Recordings of Robert Johnson traz 41 faixas porque inclui mais de uma versão de cada música). Robert Johnson faleceu em 1938 e há diversas versões para sua morte: envenenamento por uma dose de uísque com estricnina oferecida por um marido traído ou algo parecido; ingestão de uísque de má qualidade; e baleado pelo pai de uma namorada. Apesar da curta obra, é influência de diversas feras do rock n’roll e do Blues como Elmore James, Muddy Waters, Eric Clapton e Keith Richards, só pra começar.
Ao apresentar músicas como a citada e outras - Me and the Devil Blues, Hellhound on my Trail –, todas com referência ao “Coisa Ruim”, Johnson selava a fama – infundada ou verdadeira – de que toda a sua habilidade musical era resultado de um pacto com o Capeta. O bluesman nasceu em 8 de maio de 1911, no Mississippi (EUA), e a partir de 1931 passou a viajar pelo sul do país com seu violão. Gravou somente 29 músicas (The Complete Recordings of Robert Johnson traz 41 faixas porque inclui mais de uma versão de cada música). Robert Johnson faleceu em 1938 e há diversas versões para sua morte: envenenamento por uma dose de uísque com estricnina oferecida por um marido traído ou algo parecido; ingestão de uísque de má qualidade; e baleado pelo pai de uma namorada. Apesar da curta obra, é influência de diversas feras do rock n’roll e do Blues como Elmore James, Muddy Waters, Eric Clapton e Keith Richards, só pra começar.
terça-feira, 31 de março de 2009
Uma história curta
Precisava matar o eu que emergia cada vez que bebia. Sabia muito bem o que fazer: bastava nunca mais abrir uma garrafa ou aproximar-se de qualquer gota de álcool. Uma sentença bastante adequada a um crime tão sórdido. Os dias prosseguiam enquanto arquitetava cada detalhe de seu macabro plano. Porém, o tiro saiu pela culatra. Suspeitando do atentado que era tramado contra sua existência pelo lado sóbrio de sua pessoa, o eu beberrão adiantou-se e contra-atacou, não sem demonstrar requintes de crueldade. Passou a dar o ar da graça diariamente em todos os botecos das redondezas. Mal abria os olhos, saltava sobre a rota sobriedade e impunha a sua vontade. Afogou o inimigo aos poucos, sem uma gota de piedade.
quarta-feira, 25 de março de 2009
O publicitário deve ser palmeirense...

Um anúncio de página inteira da Batavo, na ZH do último domingo, saudando o patrocínio fechado com o Corinthians me chamou a atenção. Sem levar em consideração a luta do craque Ronaldo Nazário para voltar à boa forma no time do Parque São Jorge, os caras estamparam na peça publicitária a frase "Mais um reforço de peso para o Timão". Descuido do publicitário ou sacanagem pura? Tudo bem, o Fenômeno não vai morrer por isso, mas deve estar cheio de palmeirense, santista e são-paulino rachando o bico por aí depois dessa.
quarta-feira, 18 de março de 2009
E o capitalismo também fracassou...
E o capitalismo também fracassou. Depois da crise econômica mundial deflagrada no ano passado com o estouro da bolha imobiliária norte-americana, o grande propulsor do desenvolvimento entrou em colapso. É com surpresa que vejo expoentes do liberalismo econômico como Alan Greenspan (ex-presidente do Federal Reserve, o Banco Central do Tio Sam, na foto) porem a mão na consciência e assumirem publicamente que algo deu errado e não funcionou como o esperado. Mesmo que o tenham feito depois dessa grande cagada infestar o mundo inteiro.
Toda aquela conversa de auto-regulação do mercado veio por água abaixo, assim como o regime soviético e o muro de Berlim. A quebradeira dos bancos e as demissões em massa acordaram esse pessoal: Putz!!!! A economia não é um ente autônomo (embora seja bem complexo), que se move ao sabor do vento ou por conta própria. Mesmo me julgando ignorante sobre o assunto, isso sempre pareceu claro para mim. Não entendo como esses renomados senhores se deixaram enganar por tanto tempo. E ainda constato que a grande maioria deles não faz a menor idéia do que fazer para tirar o mundo desse atoleiro.
Agora, restou comprovado que, se o engessamento total da estatização não é a melhor proposta, o bacanal econômico que se jactava como promotor da prosperidade mundial também não é. São inegáveis os avanços gerados pelo capitalismo nos últimos 20 e poucos anos. Pena que tudo isso tenha acontecido apoiado em uma base inconsistente, que ruiu há poucos meses. Quantos anos terá o mundo regredido quando essa zona toda acabar? Não sei e nem os grandes economistas sabem.
Só espero que quando as coisas melhorarem – sim, eu acredito que a crise financeira vai passar – todos os senhores do capital que agora estão saneando os seus negócios com recursos dos cofres públicos não esqueçam essa esculhambação toda e cuspam no prato que comeram pregando o Estado mínimo e o livre mercado a qualquer custo.
Agora, restou comprovado que, se o engessamento total da estatização não é a melhor proposta, o bacanal econômico que se jactava como promotor da prosperidade mundial também não é. São inegáveis os avanços gerados pelo capitalismo nos últimos 20 e poucos anos. Pena que tudo isso tenha acontecido apoiado em uma base inconsistente, que ruiu há poucos meses. Quantos anos terá o mundo regredido quando essa zona toda acabar? Não sei e nem os grandes economistas sabem.
Só espero que quando as coisas melhorarem – sim, eu acredito que a crise financeira vai passar – todos os senhores do capital que agora estão saneando os seus negócios com recursos dos cofres públicos não esqueçam essa esculhambação toda e cuspam no prato que comeram pregando o Estado mínimo e o livre mercado a qualquer custo.
Alan Greenspan: "Agora fudeu..."
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